Espetáculo itinerante, com três horas de duração e classificação livre. A partir do cenário vivo composto por ruas e praças da região do Baixo Centro da cidade de Sorocaba, a peça traz Osséias, um viajante cego, que conduz o público a conhecer parte de sua história e de histórias e imagens dos seres que povoam essa região. O espetáculo fala de viajantes, de transeuntes, de passantes. Fala das passagens, das chegadas. Fala da pobreza, da guerra, da peste. Das sinas e sinas de figuras e seres. Fala dos seres que nascem e morrem dos Baixos Ventres Centros das cidades.

Do Processo de Criação

A partir da vontade de se congregar com o entorno de sua sede e de questões pessoais que intrigavam os membros do grupo, a Trupé buscou nas obras de Ítalo Calvino, Sófocles e Anton Tchekov inspiração para criação cênica. Improvisações, questões, experimentações, provocações e pesquisas fundamentaram a criação colaborativa. “Queríamos falar dos raios que nos atingem, que nos atravessam, que nos movem. Tínhamos questões pessoais e coletivas dentro do grupo. Aí olhamos por nossa janela e vimos aquele vem e vai de gente apressada, carros, motos, caminhões. Andarilhos, mendigos, prostitutas. Vimos as praças, seus monumentos. Vimos eles não sendo vistos. A rua como corredor cego. Então mais um raio caiu em nossas cabeças. Precisamos pensar, falar e corporizar tudo isso. Precisamos fazer teatro nesse nosso Baixo Centro” diz Carlos Doles, que assina a direção do espetáculo.

A partir de todo esse material, Débora Brenga inicia um trabalho de construção dramatúrgica, transformando as ideias e imagens em textos e rubricas, em roteiro. Criando assim uma hipernarrativa, fragmentos de histórias que seriam espalhados pelos espaços. O espetáculo começa a ser desenhado no Baixo Centro. Além dos sete atores da Trupé, alunos da oficina ministrada pelo grupo integram-se, somando assim 21 atores criadores.

“Um dia o Raio caiu e o Baixo Vente da cidade se abriu” nasce em processo de gestação. Nasce para ser nascido. Nasce como espetáculo itinerante que propõe ao público uma viagem por inúmeros cenários vivos do Baixo Centro de Sorocaba. Personagens e histórias que falam de idas e vindas, de decepções, esperanças, medos, ódio, amor, entre tantas outras questões. Falam do estado de cegueira e surdez do homem contemporâneo, de seus anseios. De seus desejos de ver e ouvir. Nasce então um espetáculo-jornada, uma peça-navegação pelas ruas e praças.

“Assim propomos ao público uma independência no fruir do espetáculo, com quase três horas de duração. O espectador opta por seguir ou não na viagem. Ele pode ser arrebatado no meio do caminho. Pode ver um pedaço em um dia, outro em outro. Pode até seguir até o fim. Ele pode sair de casa para ver o espetáculo ou pode ver o espetáculo pelo simples fato de ter saído de sua casa. Os ruídos, as interferências da cidade também fazem parte da hipernarrativa, incomodam e atrapalham” completa Doles.

Atuam no espetáculo Bruna Walleska, Carlos Doles, Daniele Silva, Hugo Muneratto, Ketlyn Azevedo, Laura Guedes, Victor Motta, Guilherme Miralha, Karine Souza, Drika Karol, Leandro Moraes, Joelma Manfio, Erick Azevedo, Paulo Bolognesi, Juliana Dias, Rhaab Coutinho, Kalil Leão, Jean Gomez, Guel Santos, Simone Tomé, Rebeca Leão e a participação especial de Oscar Goldszmidt. Dramaturgia de Débora Brenga, Figurinos de Felipe Cruz, Cenário e Adereços de Jaime Pinheiro, Fotografia de Adriano Sobral, Mapa da Rodoviária de Maria Quesada, Contrarregragem de Márcio Moraes e Rodrigo Hitler, Preparação Vocal de Edmo Perandin, Preparação de Atores de Rodrigo Scarpelli e Direção de Carlos Doles. Além do apoio da Linc, o espetáculo contou com a parceria da Sócia Administradora que gerencia a Rodocenter Sorocaba.

“Um dia o Raio caiu e o Baixo Vente da cidade se abriu” estreia na segunda dia 09 e segue temporada nos dias 10, 11, 14, 15, 16, 18, 21, 22 e 23 de dezembro. Início sempre às 18h na Praça da Mãe Preta, em frente a Rodoviária. A entrada é franca.

Sobre o processo de construção dramatúrgica
por Débora Brenga

O processo de criação dramatúrgica do baixo ventre da cidade se iniciou quando a Trupé já se encontrava imersa em seu processo de criação cênica há mais de oito meses. Quase o tempo de uma gestação humana me separava do tempo dessa investigação coletiva. Mas a cria, ainda, estava no útero pulsante de narrativas, workshops, espaços e tempos entrecruzados. A Trupé, então, me apresentou seus materiais e seus mergulhos. Fiquei molhada de Tchekov, encharcada de Calvino e Sófocles. Além disso, o espaço do baixo-centro me levou a pensá-lo como uma personagem da encenação. Personagem essa, de várias faces, fundidas na temporalidade real e ficcional. A cidade com suas memórias, pessoal e coletiva, engendradas nesse tempo que se faz de conta e se faz real. A tessitura da dramaturgia foi assim se tramando. Espaço real em tempos que se confudem. O presente carregado de passado. O passado presentificando o futuro. O futuro que se aproxima do presente…

De que é feito um lugar que nos narra a nós mesmos, na medida que se narra a nós, senão de memória-esquecimento, vísceras, entranhas e coração? Assim se fez a dramaturgia do baixo ventre, porque a cidade é isso. A cidade é assim: são vozes muitas, de ontem e de agora, recortes de histórias e sonhos de homens e mulheres que passam embalando projetos, dores, rasgos… Há sempre raios que atravessam o caminho de alguns e, pode ser que suas faíscas interrompam a vida de outros…

A polifonia dá o tom à multipliCidade de histórias. A hipernarrativa como dramaturgia espacial, inclue em sua esfera poética não somente o mapeamento do lugar, mas olha à topologia do texto. A linearidade do percurso dramatúrgico linear não dá conta. Pede-se por um trajeto espacial, o qual pode unir, subtrair, sobrepor as histórias de personagens passantes, viajantes, navegadores, todos em torno de um mesmo objetivo imediato: é dia da Santa. Dia de celebração. A procissão como fio condutor dos recortes narrativos desse lugar imaginário, tecido em espaço real, nos convida a ultrapassar lombadas, semáforos e monumentos. Somos chamados a intervir; elaborar sentidos, tecer uma leitura singular. Assim é a história do baixo ventre da cidade: o tempo inteiro se faz, se refaz em crtl + shift + z; se desfaz em crtl + Z. Atalhos em mim, em tu, em nós… En crtl s ou desen crtl s…

ASSISTA: UM DIA O RAIO CAIU E O BAIXO VENTRE DA CIDADE SE ABRIU